segunda-feira, 6 de julho de 2009

Hora da sesta

Hora boa a da sesta. Para os pais, hora de descanso, de dormir ou de, não raro, fazer filhos. Para nós, a hora mais esperada do dia. Antes de se recolherem, os pais, inocentes, ainda alertavam: "não façam arte!" As crianças sacudiam energicamente a cabeça, concordando. E iam, sem culpa, aproveitar a liberdade passageira. Nos encontrávamos, sem combinação prévia, eu, meu irmão Paulo, e nossos primos, Amanda, Cláudio e Marina. Todos sonolentos, o almoço ainda pesando nos estômagos. Íamos para a parte de trás da casa e, preguiçosos como os gatos que cochilavam ao sol, arquitetávamos nossos planos. Aonde iríamos hoje - quem assaltaríamos? A despensa do tio Eugenio estava lotada de bolachas, feitas na véspera, para o Natal – pinheiros, papais-noéis e estrelas – cobertas com glacê, branquinho, de açúcar e confeitos coloridos. Só de lembrar dava água na boca.
E as compotas de pêssego que meu pai fazia, que delícia! Se pegássemos umas poucas e esparramássemos as demais pelas prateleiras, ele nem notaria, tantas eram.
Mas o que eu gostava mesmo era dos pepinos e cebolas em conserva; gosto um tanto inesperado em crianças, mas comum nos pequenos colonos.
Ah! Tinha ainda as lingüiças e os torresmos da casa da Marina. E no pomar do tio Eugênio, todas as cores e aromas: morangos, pêras d’água, bergamotas, laranjas de umbigo, romãs, araçás. Com tantas opções ficava difícil escolher onde ir primeiro.
Mas mesmo crianças tinhamos as nossas próprias leis: a decisão da maioria seria respeitada. Essa era a nossa regra número um. A segunda, era nunca deixar que nos descobrissem.
Só o Mano, empregado do primo Ervino é que sabia das nossas travessuras diárias (e de certa forma, nos cuidava). Fazia a sesta à moda dos mexicanos, com um chapéu protegendo-o do sol forte de depois do meio-dia. Cochilava ali mesmo na calçada da venda, encostado à parede, e, volta e meia, nos espiava através da aba esburacada do enorme sombreiro.
Na boca um tímido sorriso de aprovação.

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(Esse texto, encontrei perdido no meu computador, junto com um haikai do Paulo: é de 2000!)

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